segunda-feira, 13 de abril de 2009

barba

Eles eram considerados por todos o casal ideal. Nunca brigavam, viviam na maior harmonia, estavam sempre rindo um para o outro e trocando carícias. Mas aí tudo mudou.De repente, ele resolveu deixar crescer a barba. Por que tomou essa decisão não estava bem claro. Parece que tinha encontrado o retrato de um bisavô, muito parecido com ele, e que usava uma bela barba negra. O exemplo o encorajou, e lá pelas tantas ele estava virando barbudo também. Não se tratava de um discreto cavanhaque, ou de uma bem cultivada barba. Não, era uma barba de patriarca, de eremita, uma barba longuíssima, que lhe chegava ao peito.Muita gente estranhou. Os amigos, naturalmente, e também o diretor da loja de departamentos onde era chefe de seção: aquilo espantava os fregueses. Mas ninguém reclamou mais do que a esposa. Para começar, ela não gostava de homens barbudos; depois, queixava-se, era uma coisa desagradável, que lhe irritava a pele do rosto. Chegou a ameaçá-lo com uma greve de sexo se o marido não fosse ao barbeiro raspar a face.Escusado dizer que nem as críticas nem as ameaças o convenceram. Estava simplesmente encantado com a barba, cuidava dela, penteava-a cuidadosamente; porque, segundo dizia, agora sim, tinha descoberto a sua verdadeira personalidade. E foi então que leu no jornal sobre o Campeonato Mundial de Barbas e Bigodes, a se realizar na Alemanha. De imediato, decidiu participar. Não tinha dúvidas de que sua barba seria a vencedora e que ele traria para o Brasil um grande título. Já sabia até que tipo de penteado faria, dando aos pêlos o formato de lanças guerreiras. Coisa para entusiasmar o júri.Quando a esposa soube desse plano, ficou por conta. Já não bastava o vexame que ele dava na cidade, precisava ir para o exterior? Discutiram longamente, mas ele não quis nem saber: iria e pronto; já estava até com a passagem comprada.Vendo que não conseguiria convencê-lo, ela partiu para a ação. Na noite antes da partida colocou um comprimido para dormir na comida dele, e enquanto o marido estava ferrado no sono, cortou-lhe a barba.Mas ele foi assim mesmo. Com uma barba postiça, que era uma cópia exata de sua barba verdadeira. Não ganhou prêmio algum, mas voltou contente: pelo menos tinha reafirmado, perante o mundo e a mulher, o direito à barba.

Moacyr Scliar... adoro.... foto meramente ilustrativa, como sempre...

Não esqueça os maus



"Senhor: quando vieres na Tua glória, não te lembres apenas dos homens de boa vontade; lembra-Te também dos homens de má vontade.

"E, no dia do Julgamento, não Te lembres apenas das crueldades, servícias e violências que eles praticaram: lembra-Te também dos frutos que produzimos por causa do que eles fizeram. Lembra-Te da paciência, da coragem, da confraternização, da humildade, da grandeza de alma e da fidelidade que nossos carrascos terminaram por despertar em nossas almas.

"Permite então, Senhor, que os frutos por nós produzidos possam servir para salvar as almas dos homens de má vontade."

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Estrutura da Alma (trecho)



Em minha atividade prática tenho me ocupado de sonhos há mais de vinte anos. Vezes e mais vezes tenho visto como idéias que não foram pensadas durante o dia, sentimentos que não foram experimentados, depois emergiam nos sonhos e deste modo atingiam a consciência. Mas o sonho como tal é um conteúdo da consciência, pois do contrário não poderia ser objeto da experiência imediata. Mas visto que ele traz à tona materiais que antes eram inconscientes, somos forçados a admitir que estes conteúdos já possuíam uma existência psíquica qualquer em um estado inconsciente e somente durante o sonho é que apareceram à consciência restrita, ao chamado "remanescente da consciência". O sonho pertence aos conteúdos normais da psique e poderia ser considerado como uma resultante de processos inconscientes, a irromper na consciência.
Se, porém, com base na experiência, somos levados a admitir que todas as categorias de conteúdos da consciência podem, ocasionalmente, ser também inconscientes e atuar sobre a consciência como processos inconscientes, deparamo-nos com a pergunta, talvez inesperada, se o inconsciente tem sonhos também. Em outras palavras: há resultantes de processos ainda mais profundos e — se possível — ainda mais inconscientes que penetram nas regiões obscuras da alma! Eu deveria repelir esta pergunta paradoxal como demasiado aventurosa, se não houvesse realmente motivos que conduzem semelhante hipótese ao domínio do possível.
Devemos primeiramente ter diante dos olhos os elementos necessários para provar que o inconsciente tem sonhos também Se queremos provar que os sonhos ocorrem como conteúdos da consciência, devemos simplesmente demonstrar que há certos conteúdos que, pelo caráter e pelo sentido, são estranhos e não podem ser comparados aos outros conteúdos racionalmente explicáveis e compreensíveis. Se pretendemos mostrar que o inconsciente tem sonhos também, devemos fazer a mesma coisa com os seus conteúdos. O mais simples talvez seja apresentar um exemplo prático:
Trata-se de um oficial, de 27 anos de idade Ele sofria de violentos ataques de dores na região do coração, como se dentro houvesse um bolo, e de dores penetrantes no calcanhar esquerdo. Organicamente não se descobriu nada. Os ataques haviam começado cerca de dois meses antes e o paciente fora licenciado do serviço militar, em vista de sua incapacidade temporária para andar. Várias estações de cura de nada adiantaram. Uma investigação acurada sobre o passado de sua doença não me proporcionou nenhum ponto de referência, e o próprio paciente não tinha a mínima idéia do que poderia ser a causa de seu mal. Ele me dava a impressão de ser um tipo saudável, um tanto leviano e teatralmente meio "valentão", como se quisesse,.dizer: "Nesta ninguém me apanha". Como a anamnese nada revelasse, eu lhe fiz perguntas a respeito de seus sonhos. Imediatamente tornou-se evidente a causa de seus males. Pouco antes da neurose se manifestar, a moça que ele namorava rompeu com ele e noivara com outro. Ele me contou essa história, considerando-a sem importância — "uma mulher estúpida: se ela não me quer, eu arranjo outra — um homem como eu não se deixa abater por uma coisa destas". Esta era a maneira pela qual ele tratava sua decepção e sua verdadeira dor. Mas agora seus afetos vêm à tona. E a dor do coração desaparece e o bolo que ele sentia na garganta desaparece depois de alguns dias de lágrimas. A "dor no coração" é uma expressão poética que aqui se tornou realidade, porque o orgulho de meu paciente não lhe permitia que ele sofresse sua dor como sendo uma dor da alma. O bolo que ele sentia na garganta, o chamado globus hystericus, provém, como todos sabemos, de lágrimas engolidas.
Sua consciência simplesmente se retirou dos conteúdos que lhe eram penosos, e estes, entregues a si mesmos, só podiam alcançar a consciência indiretamente sob a forma de sintomas. Trata-se de processos inteiramente compreensíveis por via racional e, conseqüentemente, de evidência imediata, os quais — se não tivesse sido o seu orgulho —poderiam igualmente transcorrer no plano da consciência.
E agora quanto ao terceiro sintoma: as dores que ele sentia no calcanhar não desapareceram.
Elas não se enquadram na imagem que acabamos de esboçar. O coração não está ligado diretamente ao calcanhar e ninguém exprime sua dor por meio do calcanhar. Do ponto de vista racional não se vê a razão pela qual as duas outras síndromes não satisfaziam.
Mesmo teoricamente, estaríamos inteiramente satisfeitos, se a tomada de consciência do sofrimento psíquico resultasse em dor normal e, conseqüentemente, em cura. Como a consciência não podia me oferecer nenhum ponto de referência para o sintoma do calcanhar, recorri mais uma vez ao antigo método dos sonhos. O paciente teve um sonho em que se vira mordido por uma serpente e imediatamente ficara paralítico. Este sonho, evidentemente, trazia a interpretação do sintoma do calcanhar. O calcanhar lhe doía porque fora mordido por uma serpente. Tratava-se de um conteúdo estranho, com o qual a consciência racional nada sabia o que fazer. Pudemos entender, de imediato, a razão pela qual o coração lhe doía, mas o fato de o calcanhar também doer, ultrapassava qualquer expectativa racional. O paciente ficou completamente perplexo diante do caso.

jung

domingo, 22 de março de 2009

super, grant...


Grant Morrinson, sobre seu Superman All Star...

"Nós desconstruímos nossos ícones. Sabemos que políticos são mentirosos filhos da puta, que astros da TV são viciados em cocaína, que os atores bonitos são malucos travecos e que as lindas supermodelos são bulímicas, neuróticas e caóticas. Sabemos que nossos comediantes prediletos vão virar alcoólatras pervertidos ou deprimidos suicidas. Nossos reality shows colocaram um espelho escaldante diante das nossas caras de babuíno e das nossas obsessões óbvias e ridículas pela sujeira mais baixa e a fofoca mais inútil.

Sabemos que acabamos com a atmosfera e matamos os doces ursos polares e nem temos mais energia para sentir culpa. Deixa os pedófilos levarem as crianças. Não há mais a quem recorrer ou culpar, fora, paradoxalmente, aqueles caras levemente medievais que começaram a revolução industrial. No que resta acreditar? O único homem de verdadeira moral, de verdadeiro coração que nos resta é um personagem fictício dos quadrinhos! Os únicos modelos seculares a serem seguidos em uma cultura progressista, responsável, racional-científica e iluminada são... Kal-El, de Krypton, mais conhecido como Superman, e seus descendentes multicoloridos.

Nosso objetivo era colocar Superman e seu elenco no coração de fábulas sci-fi que qualquer pessoa, de qualquer idade, poderia ler e entender, embora cada um fosse entender as histórias de um jeito. Se você acaba de perder seu pai, talvez você leia o que Clark Kent diz no funeral do pai dele e sinta um pouco de comunhão humana. Se você quer sentir como é ser adolescente, veja o fantástico desenho de Frank Quitely do jovem Superman na lua, com seu fiel supercão Krypto ao lado. Superman é nós mesmos, nos nossos sonhos. Ele vive nossas vidas, mas de forma épica. Essa foi nossa abordagem."

quarta-feira, 18 de março de 2009


"Que Deus nos perdoe pelas pequenas piadas que temos feito contra ele... que nós o perdoaremos pela grandre piada que ele tem feito contra nós"

Lourenzo Mutarelli

terça-feira, 17 de março de 2009

Critica Desaforada de Wachmen


Depois que o gibi me levou à níveis tão profundos de reflexão, é impossivel me sentir confortável diante da superficialidade do filme.
É uma coisa muito séria... que é exatamente o que diferencia o quadrinho de outras mídias... O pau do Dr. Manhatan não balança nos gibis... se você leu o gibi e entende sobre o que eu estou falando, talvez você compreenda a seriedade disso tudo... esqueça o édipo, ele é só uma glândula... seja profundo... o que quis dizer toda aquela ultraviolência...? Tem um sentido... ainda não entendi... uma coisa é você sair no pau, brigar e ficar um pouco excitado, mas aquele massacre do coruja e da espectral foi brutal... fratura exposta e pescoço quebrado... depois vão pra casa e a mina fica querendo trepar... aí foi um pouco demais pra mim... nem esse Batman do filme novo, um bruto, foi tão longe... é gore o nome disso, né? Não entendi, não gostei...
Só tenho uma palavra...: Alan Moore tinha razão...
E tem mais, esse tipo de coisa só fortifica minha fé... JAH!!!
Podem dizer que ele é chato, que é doidão, que fala demais, fuma haxixe demais, cogumelo demais... podem falar o que seja... Alan Moore estava certo...
Pra quem acha ele chato, feio e bobo... só proponho um exercício de empatia... se colocar no lugar dele... e ver sua obra (prima?) ser transformada em uma armadilha, uma arapuca, uma maquina maléfica de fazer dinheiro... sim, porque esse filme foi demais, já foi lançado no cinema, com uma versão do director (???) que será lançada em breve em dvd, com 50 minutos a mais... que merda... os contos do cargueiro negro, uma poesia dentro do quadrinho, que virou uma animação e será lançado em dvd nas melhores lojas do ramo... mais as edições do quadrinho que tão sendo vendidas como nunca (isso eu acho massa!!), mais o livro do Dave Gibbons, bastidores do Wachmen (quem sou eu pra criticar o Dave Gibbons)... e mais bonequinho e lancheira e o caralho...Arapuca dos infernos... além do finalzinho infame do filme, com aquela vibe de continuação barata... Aguardem...
Aqueles personagens representavam os “super-herois”, e eram tão humanos como nós... em determinados momentos entre suas falhas, limitações, neuroses... podiamos enxergar nossas aspirações, nossos sonhos e nossa nobreza... o quanto de nós mesmos devemos abrir mão...? o que devemos sacrificar...?
Você pode comer diamantes para sua bosta sair brilhante... mas não se engane, vai continuar sendo bosta...

segunda-feira, 2 de março de 2009